sábado, 5 de junho de 2010

Um pouco de Fernando Pessoa

Poema em linha reta




Fernando Pessoa

(Álvaro de Campos)



[538]



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.





E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.





Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...





Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,





Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?





Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?





Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.





Uma visão breve sobre a vida e a obra do maior poeta da língua portuguesa:



- 1888: Nasce Fernando Antônio Nogueira Pessoa, em Lisboa.



- 1893: Perde o pai.



- 1895: A mãe casa-se com o comandante João Miguel Rosa. Partem para Durban, África do Sul.



- 1904: Recebe o Prêmio Queen Memorial Victoria, pelo ensaio apresentado no exame de admissão à Universidade do Cabo da Boa Esperança.



- 1905: Regressa sozinho a Lisboa.



- 1912: Estréia na Revista Águia.



- 1915: Funda, com alguns amigos, a revista Orpheu.



- 1918/1921: Publicação dos English Poems.



- 1925: Morre a mãe do poeta.



- 1934: Publica Mensagem.



- 1935: Morre de complicações hepáticas em Lisboa.





Os versos acima, escritos com o heterônimo de Álvaro de Campos, foram extraídos do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 418.

sábado, 6 de março de 2010

Larissa Victória fazendo o juramento na formatura

Larissa Victória em sua formatura do 5º ano

A mulher na literatura

Durante séculos as mulheres foram culturalmente reduzidas ao silêncio, ocupando o lugar de espectadoras na sociedade e na literatura. Ainda hoje muitas mulheres aceitam a passividade, a condição de servas do homem e se conformam pensando “sempre foi assim”.


Porém, a cultura de nossos dias parece cada vez mais atenta ao discurso das mulheres e sobre as mulheres. Após séculos aparecendo na história da literária no papel de objeto, finalmente a mulher surge como sujeito capaz de propor muitos valores, de praticar e de sensibilidades diferentes.

A mulher sempre esteve presente ma literatura, mas mesmo quando era musa inspiradora dos poetas, a mulher aparece sem identidade e vista com um olhar masculino.

Em Portugal, o reconhecimento e a consciência da especificidade da escrita feminina tem sido lenta. Porém após 25 de abril de 1974, a literatura portuguesa tornou-se mais rica graças ao surgimento de novos escritores, em especial as mulheres.

Sempre houve quanto a mulheres escritoras. E as correntes literárias veiculam a mulher como objeto do discurso masculino. Contudo, através da criação feminina a mulher é vista por ela própria e capaz de abordar questões do corpo, do desejo e tornar-se cada vez mais autentica.

No século XVII, D. Francisco Manuel de Melo, um dos escritores mais cultos de seu tempo, em sua obra intitulada “Carta de guia de casados” ao aconselhar um amigo que vai casar apresenta uma série de preconceitos contra a mulher. Nessa obra fica evidente o medo que a identidade feminina provoca nos homens desta época.

Segundo Melo, a mulher ideal deve ter pouca instrução pois se a mulher conquista acesso a cultura, a estabilidade familiar pode ser prejudicada.

Por tal razão, aconselha aos homens prudência em relação às mulheres instruídas.

No século XVIII, as perspectivas mudam. A questão da desigualdade entre homem e mulher ocupa uma parte das obras de Fénelon, Montesquieu, Voltaire ou Diderot e ecuam em Portugal. Nesta época, Luís António Verney constata que a educação das mulheres portuguesas é medíocre, o que, na sua opinião é horrível, pois são as mulheres as encarregadas da educação das crianças, os futuros homens. E graças a essa abertura muitas mulheres começaram a estudar e a exprimir-se.

Ainda no século XVIII, começa a surgir uma nova imagem da mulher que aparece agora como sujeito da sua própria história, consciente de seu papel na sociedade , e aberta `a luta por sua emancipação e dignidade.

Porém, a escrita feminina continua a ser um lugar de conflito entre o desejo de escrever e uma sociedade que manifesta uma reação contra esse desejo. Esta reação é feita através da ironia e da hostilidade.

No século XIX, temos alguns exemplos de tal atitude. O mais conhecido é o caso de Maria da felicidade Couto Brown, casada com um comerciante rico do Porto. Em 1861, após sua morte, um de seus filhos tentou destruir os exemplares que restavam de um texto poético publicado em 1854. E fez isto para salvar a honra da família. Maria Brown escrevia às escondidas, pois nesta época a mulher escritora era ridicularizada e provocava uma grande indignação – ao “perder” seu tempo escrevendo poderia sobrar pouco tempo para os trabalhos tidos como femininos.

No Romantismo os modelos literários revelam dois tipos femininos: o anjo e o demônio. A inocente e frágil e fatal.

No fim do século XIX, Ana de Castro Osório funda a liga Republicana das mulheres portuguesas que em, 1909 permitiu o combate pela emancipação das mulheres – surgiu leis importantes relativas ao casamento, à educação das crianças e ao divorcio -. E a mulher adquiriu uma lugar na vida literária e cultural.

Florbela Espanca é uma das vozes femininas mais marcantes do inicio do século XX. Sua vida é fielmente retratada em seus sonetos. Florbela é a primeira mulher a introduzir na literatura portuguesa, uma poesia de vibrações eróticas, que afirma o desejo.

No século XX, a literatura portuguesa desenvolve várias imagens femininas: temos a mulher emancipada, a submissa, a mãe e a prostituta.

Quando a mulher começa a escrever, o conceito de literatura sofre algumas mutações. Pois os estereótipos românticos reduzem o corpo da mulher, pela referencia de olhos, cabelos e através da escrita feminina o corpo da mulher tornou-se vivo e com identidade própria.

No anos 70, o movimento das mulheres que ocorreu nos Estados Unidos, França e na Itália, atinge uma minoria das portuguesa. Em abril de 72, três mulheres escritoras ( Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta) publicam os “Novas cartas portuguesa” e são perseguidas pela justiça, acusadas de atitudes contra a moral.

Este livro mobiliza a opinião, interroga e questiona o papel da mulher. Neste texto, as três Marias denunciam a condição feminina subalterna e afirmam a circulação do desejo e ousam propor, em uma época marcada pela hipocrisia, idéias subversivas relativas à sexualidade ou ao aborto.

A censura sobre o livro despertou o interesse do publico e a Revolução dos Cravos impediu os perseguidores de punir as escritoras, que são consideradas como as únicas representantes do feminismo em Portugal.

Na década de 70 as feministas começam a se preocupar com o gênero como categoria de análise literária. E isto ocorre a partir de duas posições distintas: sexo, que se refere a uma das duas categorias biológicas do corpo humano tanto masculino quanto feminino. Gênero, que se associa às categorias de expectativas, papéis, comportamentos e valores sociais em que o corpo se posiciona.

Enquanto sexo é um assunto físico, gênero é social, na qual homens e mulheres são educados e valorizados de maneiras diferentes e desiguais. Conceitos de feminilidades e masculinidades são produtos de processos culturais e sociais. As características masculinas e femininas não são manifestações de uma essência natural, universal ou eterna de homens e mulheres, mas ao contrario, funcionam como identidade e papéis de gêneros aceitos em nossa cultura, mas nada mais é fixo é imutável e esses papéis são – e devem- ser repensados redefiniodos.

Após 25 de abril de 74, a escrita feminina é abundante e esses escritores renovam a literatura portuguesa contemporânea.

Um pouco de poesia

Dois e Dois são Quatro


Como dois e dois são quatro

Sei que a vida vale a pena

Embora o pão seja caro

E a liberdade pequena

Como teus olhos são claros

E a tua pele, morena

como é azul o oceano

E a lagoa, serena



Como um tempo de alegria

Por trás do terror me acena

E a noite carrega o dia

No seu colo de açucena



- sei que dois e dois são quatro

sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro

e a liberdade pequena.

Ferreira Gullar